Prática
Fotografar no virtual
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- Publicado em 21-04-2009
Apesar de a imprensa generalista o ter esquecido, Second Life continua bem e de saúde. Trata-se de um mundo virtual onde também se fotografa. Uma experiência que se aconselha, pela liberdade que cria e soluções que permite, rasgando horizontes ao discurso do fotógrafo. E devolvendo-o à realidade com novas visões de enquadramento, mais livres ou ousadas.
Em 2007 publiquei na Fotodigital, edição em papel, um artigo, intitulado, “Os fotógrafos do outro mundo”, onde colocava a questão do que era realmente a fotografia num tempo em que as imagens só existem virtualmente dentro de sensores e como bits. É tempo de recuperar essa informação, reajustada, agora para deixar aos leitores uma resenha do que actualmente sucede naquele mundo. Onde se continua a fotografar.
O texto agora republicado refere ligações e situações que não são já verdade em alguns casos, mas a persistência é também uma regra e o caso de Ana Lutetia é disso sinal. A jovem modelo continua com espaço aberto nos blogs, provando que o Second Life é, fotograficamente até, mais do que uma “febre” que arrastou a Comunicação Social. Que explorou e cilindrou o mundo, depois o cuspiu e esqueceu, avançando para os blogs e agora o Twitter. Sempre atrás, mas pensando ter descoberto o mundo...
Pessoalmente, mantenho uma relação com Second Life, menos intensa do que nos tempos em que ali vivi como “enviado especial do Expresso”, uma missão que se finou quando o jornal achou que os meus artigos – que não incluíam suficiente dose de sangue, sexo e o resto – não tinham clics suficientes para justificar manter a coluna. Pois... mas sobre isso espero escrever em breve um artigo no meu site de videojogos, em www.videojogos-online.com.
Eis o texto publicado, então, na FD.
O que é realmente uma fotografia? Aquela informação que registamos com uma película fotográfica? Ou a de um sensor digital? E as que captamos de mundos virtuais na Internet? A questão torna-se incontornável agora que uma nova geração de fotógrafos nasce, a par com a passagem de alguns para um outro mundo, chamado Second Life.
As fotografias de Viktor Stroganoff deram-me uma sensação de déjà vu. Sabia já as ter visto em qualquer lado. E tinha razão. Na abertura de uma primeira galeria de fotografia em Second Life, um mundo virtual de que a Imprensa muito tem falado (e disparatado...) as fotos suspensas na parede virtual eram-me familiares. Havia publicado uma delas numa edição da FOTOdigital, há alguns anos atrás.
Sob a figura de Viktor Stroganoff, o avatar do autor em Second Life, esconde-se um antigo leitor da revista, Paulo Pinto. Uma outra identidade para as fotografias da vida real transpostas para galerias virtuais num universo que se tem revelado excelente ambiente para fotógrafos. A exposição de Viktor Stroganoff sucedeu na galeria LX, na ilha de Portucalis, em Second Life. A mostra, intitulada A Passage in Time, dividia espaço com Ice, criação de McFisto Furse, avatar de outro fotógrafo real inscrito na aventura dessa Segunda Vida.
Ambos são apaixonados por fotografia e decidiram explorar em Second Life as opções de exibição fotográfica. Viktor Stroganoff, um técnico informático de 41 anos, diz que, “como fotógrafo amador na vida real, o meu primeiro objectivo foi o de divulgar o meu trabalho em SL. Completamente rendido à forma como se podem criar conteúdos no Second Life, comecei a colocar fotografias minhas em vários espaços. Em primeiro lugar, coloquei-as na minha casa virtual. Ofereci-as a amigos.”
Tradicionalismo obstinado
Para McFisto Furse, de 34 anos e com um envolvimento parcial no ensino de fotografia desde 1992, a ideia de fazer uma galeria surgiu como resposta “à dificuldade que a grande maioria dos artistas sentem para mostrar o seu trabalho ao grande público, em Portugal e especialmente em Lisboa. A galeria pode ser uma forma de divulgação para aqueles que vivem essa angústia e é seguramente para todos os residentes um local onde podem conhecer e discutir os trabalhos que vão sendo expostos. Embora não estejamos autolimitados a mostrar exclusivamente trabalho de autores portugueses, daremos prioridade a estes sempre que a qualidade o justifique.”
Viktor Stroganoff afirma que o seu trabalho “é caracterizado pela procura da emoção. Fotografo o que me toca, independentemente do estilo. Prefiro o preto e branco. Acho-o mais abstracto. Sou amador de fotografia desde 2004. Para McFisto Furse, as fotos são um trabalho experimental “cuja ideia reside na nova discussão sobre o futuro dos processos fotográficos tradicionais à base de filme de prata, face ao aparecimento da técnica digital.”
Diz o autor que “numa acção figurativa de perpetuar a vida do filme de prata, ao estilo da ficção científica, congelei alguns diapositivos de 35mm e voltei a fotografá-los dentro do bloco de gelo. Inicialmente alterei a temperatura de cor da luz e executei seis fotografias em três tons: vermelho, verde e azul. Mais tarde acabei por explorar outras cores que a meu ver acabaram por resultar dentro do contexto pretendido. Os diapositivos que figuram nas imagens foram realizados para este efeito. Utilizei a figura humana dotada de uma expressão corporal que revela reclusão, uma opção de estilo tomada com base na rejeição por vezes não argumentada, que muitos puristas da fotografia de prata têm em relação às novas técnicas, encarcerando-se e limitando-se eles próprios num tradicionalismo obstinado.”
Turismo virtual
Na galeria, sempre à espera de novas exposições, as imagens misturam-se com as notas do jazz. Som de uma rádio americana que emite jazz contemporâneo enche a área superior do espaço, baptizada de Monk’s Terrace, em homenagem a Thelonius Monk. Se viaja naquele mundo virtual, o endereço da galeria é GALERIA LX Arts and Jazz, Portucalis (104, 58, 22). Para saber a programação da galeria procure na Internet em http://sl2worlds.wordpress.com.
Esta entrada de fotógrafos da vida real em Second Life é já uma regra, mas aquele mundo virtual presta-se à prática de fotografia, que curiosamente salta para o mundo real, misturando-se, em locais como o Flickr, com as fotos de lugares do mundo real.
Nos diversos mundos virtuais e em jogos, os visitantes tendem a fotografar paisagens, locais, até a si próprios, como forma de retenção de momentos, uma função própria da fotografia. Second Life é, porventura, o mais activo dos mundos virtuais no que respeita a recolha fotográfica pelos seus habitantes. E visitantes, porque muita da fotografia que chega daquela “outra vida” é de destinos paradisíacos, distantes no tempo e no espaço, recolhidas como se fossem instantâneos de algum turista em férias.
De lugares como Veneza, com barulho de pombos e tudo o resto a uma praça cheia de música em Barcelona, onde se faz uma pausa para um virtual café e se tira uma foto, até Paris como era em 1900 ou uma artéria movimentada de Londres, o turismo virtual tem sempre na fotografia uma aliada.
Estupor fotográfico
A actual pujança gráfica dos mundos virtuais face aos seus predecessores impele os visitantes para a captura fotográfica, que começou por ser feita com a vulgar tecla de “PrintScreen” – no PC – mas hoje surge como uma função embebida no próprio programa. Em Second Life, o mundo virtual da Linden Lab, é mesmo possível ter lições para saber como usar a câmara fotográfica virtual do programa.
Se o leitor sorriu ao pensar na ideia de alguém a “tirar fotografias” de um mundo virtual, pense duas vezes. É que afinal, a fotografia sempre foi uma forma de captar virtualmente – ou pelo menos de forma latente, na película – uma imagem. A materialização só ocorria com a revelação do filme ou mesmo, se quisermos, no caso de negativo, com a impressão, que permita recuperar a cena captada. Não é muito diferente hoje, afinal, com a fotografia digital, de que esta versão, que podemos chamar de fotografia digital virtual, começa a ganhar novos contornos.
Mania recente e moda que passará? Talvez não. De facto, já no dealbar dos mundos virtuais as pessoas queriam ter uma forma de recordar e dividir com outros as suas viagens do outro lado. Em 2002 o sociólogo e especialista em questões de turismo John Urry escrevia sobre o papel importante da fotografia nas migrações turísticas no mundo real, colocando o fotógrafo numa espécie de estupor fotográfico que condicionava a sua forma de ver os ambientes diante de si. Essa experiência acaba por ser repetida nos mundos online, onde é sobretudo a vertente visual que predomina. O autor referia ainda os parques temáticos, tão em voga, como uma espécie de hiper-realismo apreciada pelos fotógrafos, um tema que Umberto Ecco abordou também em 1986, em Viagens na Irrealidade Quotidiana.
Estúdio sofisticado
Ora os mundos virtuais mais não são do que parques temáticos - recriações de Barcelona, de Londres, Veneza ou até Paris de 1900, aqui aliando um salto no tempo impossível no mundo real – montados em conjunto, para gáudio dos novos turistas. Virtuais.
Além de toda a fotografia que é actualmente feita nesses mundos, estamos a assistir a uma migração de fotógrafos reais, que abrem galerias virtuais em Second Life – o mais realista e gráfico dos mundos virtuais – para mostrar o seu trabalho. Alguns fotógrafos profissionais da vida real exercem também actividade fotográfica do outro lado, fotografando a vivência social – casamentos, festas, os famosos, paisagens, etc. – em Second Life. Têm, assim, uma vida dupla em dois universos...
Isso levou à criação de sistemas de luz próprios para a fotografia em mundos virtuais, que já podem ser encontrados em Second Life. Além de que ali o fotógrafo pode controlar a luz solar e a iluminação nocturna a seu bel-prazer, para ter as condições necessárias. Mas isso não invalida que alguns queiram ter as mesmas ferramentas que conhecem do mundo real Não admira pois, que a primeira patente para um conjunto completo de estúdio fotográfico profissional virtual tenha sido registada nos Estados Unidos recentemente, protegendo o mais popular dos sistemas de fotografia criados em Second Life. Trata-se do N30, um eficiente e ultra-moderno estúdio fotográfico moldável para todos os tipos de fotografia, com opções que só em sonho se podem ter num estúdio da vida real. Este é virtual e digital. Claro.
O artigo incluia ainda uma entrevista com uma das mais populares figuras do SL português
Ana Lutetia
Fotógrafa e... modelo
Ana Lutetia é a mais popular modelo de Second Life. A avatar de Ana Andrade Teles aproveita a capacidade de “sair do corpo” no mundo virtual para se fotografar com os modelos que desfila.
Ganhou concursos de fotogenia, foi finalista em concursos da L’Oreal e da Lacoste. Em Second Life. Na vida real foi capa de uma revista. Por causa da outra vida... Em RL (Real Life) é Ana Teles, de 31 anos. É, diz, “formada em Sociologia embora nunca tenha tido a oportunidade trabalhar exactamente na minha área. Trabalho numa empresa multinacional de Telecomunicações. Talvez devido à minha formação académica, adoro viajar: conhecer outras culturas, outros países. Já estive em Marrocos, Brasil, Espanha, Croácia, Sérvia, Polónia, Hungria, República Checa.”
Em SL, Ana Lutetia “nasceu a 11 de Novembro de 2006 após ter descoberto num blog um post sobre o SL. Inscrevi-me, fiz o download, entrei e não percebi nada do que ali se passava. Fui-me ambientando, percebendo as regras do SL e descobrindo locais fantásticos. O SL é inteiramente construído pelas pessoas que o habitam. Um dia, decidi que queria ser modelo. Para isso precisava de um portfolio e a maneira mais simples de o ter foi criar o meu próprio portfolio tirando eu mesma as fotografias.”
Existem diferenças, continua “entre captar imagens na realidade e no metaverso. No entanto, também existem semelhanças. Não tenho curso de fotografia nem aplico técnicas na realidade ou no metaverso. No SL, aquilo que faço é procurar o melhor ângulo, a melhor luz (o SL permite escolher a luz) e capturo a imagem. A maioria das imagens passam pelo PhotoShop (RL e SL) para aumentar o contraste. Nas fotografias SL ainda aplico filtros. Uso o grão, com alguma frequência, para dar uma imagem de realidade à fotografia no SL. Tanto na realidade e no SL podemos obter várias imagens de um mesmo local - tudo depende do ângulo, do enquadramento que se faz. Uma das grandes vantagens do SL é, sem dúvida, a possibilidade de alterar a luz na altura da captura. No entanto, no SL (sem o WindLight, o novo motor de efeitos gráficos do mundo virtual) não existem céus realistas. E eu adoro fotografar nuvens e céus azuis.”
Escolher o plano
Para Ana Teles “no SL há que perceber as possibilidades do programa e explorá-las. Na realidade há que perceber que rolo devemos usar para determinada imagem que queremos captar”. E conclui com uma interrogação: há assim tantas diferenças?
Para mim, diz, “podemos equiparar a fotografia SL com a fotografia digital. Há quem denomine a fotografia SL como ‘screenshots’ de um jogo. Mas, para obter um bom ‘screenshot’ é preciso saber olhar e escolher um bom plano e aí não há muitas diferenças entre RL e SL. Os puristas da fotografia recusam a fotografia digital e, necessariamente, irão recusar que se faça fotografia no SL. Mas, recordo que o digital oferece possibilidades que a fotografia analógica não permite.”
No Second Life, adianta, “fotografo a minha avatar(a). Não é bem fotografar a mim própria. Na vida real tenho poucas fotografias da minha pessoa porque sou quase sempre eu que estou atrás da câmara.”
Sobre as fotografias que lhe tiram envergando modelos, diz que são “trabalho mas também divertimento. Já tirei fotos com amigos (modelos) só para obtermos imagens bonitas. Já fui fotografada para anúncios de lojas de roupa, algumas com bastante notoriedade no SL. No SL, numa sessão fotográfica, entregam-nas as roupas que querem que usemos. Cabe ao modelo escolher (no seu inventário) o cabelo adequado, skin (pele com maquilhagem apropriada), acessórios e sapatos. Por tudo isto, tem que ser divertido. Caso contrário, o investimento que um modelo tem que fazer o SL torna-se penoso.”
Ana Teles afirma que em Second Life ou na vida real “adoro tirar fotografias de lugares, paisagens. Não há muita diferença entre as minhas fotografias SL e RL. A grande marca em ambas é a ausência de pessoas e, muitas vezes, tento criar uma moldura dentro da imagem que capturo.
No SL utilizo o interface e o PhotoShop. Na RL tenho várias câmaras: uma reflex Minolta, Konica Minolta digital, Lomo, Olympus meio-formato (16mm). Algumas destas câmaras têm mais anos do que eu, dado que foram adquiridas pelo meu pai em 1969. Desde que me lembro de mim que me interesso por fotografia. Ao longo dos anos, fui aprendendo a melhorar as fotografias que tiro em férias, na minha cidade ou, mesmo, dos meus amigos. Continuo a aprender a manipular as imagens no PhotoShop para obter aquilo que quero. Não recuso a ideia de vir a tirar um curso de fotografia (analógica, digital e PhotoShop) mas até agora ainda não tive oportunidade.”
Links
http://analutetia.blogspot.com
http://lua-fotolog.blogspot.com
Finda a reposição do artigo, que inclui a entrevista a Ana Lutetia, tempo ainda para umas notas de rodapé.
Que a fotografia virtual é uma realidade, prova-o o facto de eu ter milhares de fotos “tiradas” em Second Life e em muitos outros mundos virtuais e jogos. E tenho também milhares de fotos de dois anos de permanência no jogo Lord of The Rings Online. E quem duvidar de que se tratam de verdadeiras fotografias e de um discurso fotográfico com as mesmas regras só tem de espreitar os comentários à imagem que podem ver aqui e que encontram também em http://www.massively.com/2008/03/23/one-shots-everyone-say-cheese/. Ali se diz que é uma excelente foto e que o enquadramento é bom. Nada diferente, portanto, do que se comenta em espaços de fotografia na Web como o Flickr. Aliás o site Massively tem uma secção chamada One Shot para que convida as pessoas a enviarem fotografias dos seus momentos em mundos virtuais e jogos. É ali mesmo que tenho publicado diversas imagens, até mesmo fotos que considero de “família”: eu e os meus dois filhos vestidos a rigor como hobbits em LotRO. No jogo. De facto a minha fotografia tem em LotRO a mesma exigência da que faço na vida real. Mas sobre isso encontra mais imagens e comentários no meu site de Videojogos, em www.videojogos-online.com.











































































