Prática
A fotografia como resultado de VER
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- Publicado em 15-04-2011

Por mais sofisticada que seja a câmara, o importante é o fotógrafo. Uma verdade que se renova sempre que voltamos a casa com imagens que nos satisfazem. Eis quatro fotos realizadas num par de horas que confirmam a importância de VER e não unicamente Olhar.
As quatro imagens publicadas com este texto e com que criei um apressado poster para enviar aos participantes num workshop que realizo amanhã, são o exemplo cabal da importância de VER em fotografia.
Tenho para mim aprendido ao longo de todos este anos que, mais do que Olhar é de VER que se trata quando de fotografia falamos. E eu que estou na génese de um suplemento de fotografia que pelos anos 80/90 marcou o mercado nacional – falo do Olhar, essa “revista” em papel de jornal – como parte integrante do jornal A Capital, sinto que se hoje voltasse atrás lhe chamaria VER, por sentir que o Olhar é demasiado superficial para que a fotografia pulse com intensidade.
É realmente de VER que as pessoas necessitam para regressarem a casa com imagens que valem a pena. Como estas que o leitor encontra nesta página. Se pareço vaidoso, diria que posso ter uma ponta de vaidade com as fotos apresentadas. Elas foram todas feitas no decurso de um par de horas em prospecção no mesmo terreno onde amanhã vou levar um grupo de pessoas para bem mais horas de ensaio fotográfico. Foram feitas hoje mesmo, dia 15 de Abril de 2011, num espaço de algumas centenas de metros, o mesmo cenário onde amanhã um grupo tentará encontrar as suas fotos e... VER.
Quando hoje comecei a enviar as fotos às pessoas, num cartaz feito rapidamente no Photoshop, poucas faziam ideia de que aquilo era o resultado de um dia, digo algumas horas, no destino do workshop. O que as deixou ainda mais interessadas, porque este é o verdadeiro material do que chamo de “fotografia ao vivo”. O que lhs proponho não é nada servido com o aliciante de fotos trabalhadas por meses, mas sim o resultado de uma viagem como a que eles farão, com as mesmas possibilidades de êxito.
É disso que trata este percurso Fundodomar de que estas fotos são um sinal. É uma viagem na fronteira entre terra e mar, com tudo o que se encontra do lado de cá e do lado de lá. Já mostrei diversas outras fotos de momentos nos espaços dessses percursos, e tenho mesmo um eBook, cuja capa pode ver aqui, com meia centena de páginas de informação sobre esta viagem. Mas agora quis mostrar às pessoas que mesmo se temos o mar como tema central, há bem mais elementos para VER no workshop proposto.
Estas fotos seguem os meus preceitos chave para a organização de imagens, uma rotina que tento explicar e simplificar. É assim: determina-se o elemento chave da composição e organiza-se todo o espaço do enquadramento à volta dele, procurando o balanço adequado para o destacar. Em termos de luz privilegia-se os tons saturados, com ligeira subexposição que permite manter o histograma com uma tendência para o lado esquerdo, sem contudo criar zonas muito escuras e procurando que no lado mais iluminado se atinja o limite, sem cortes. Isto, claro, quando a imagem nos dá um histograma normal. Para simplificar, tenho uma máxima: confie nos seus olhos. Quando aprender a relacionar o que vê no histograma com o que o ecrã lhe dá e a extrapolar daí o resultado final possível, estará a... VER. Vê, é simples!
A segunda regra essencial no que fotografo é... cuidado com os fundos. Prefiro sempre jogar com fundos desfocados, ou porque estão suficientemente distantes ou porque o diafragma usado me o permite. É que nem sempre os dois quesitos jogam em parelha, como alguns podem pensar. E claro que jogo ainda com tons contrastantes, como se verifica no lagarto. Eu podia fotografá-lo contra as pedras do muro, mas isso reduziria o destaque que o céu azul permite obter, e que faz toda a diferença. São estas coisas decididas no momento, porque os lagartos não esperam todo o tempo, que sugerem que o fotógrafo mais do que Olhar, se deu ao trabalho de VER.
O jogo de planos focados e desfocados repete-se nas fotos de flora, com na flor o uso de primeiros planos e planos recuados desfocados para criar uma espécie de véu suave difusor, que me agrada sobremaneira obter nas minhas fotos de flores. Na outra foto, com um fundo uniforme desfocado, é o jogo entre o primeiro elemento, focado, a folha, e a segunda, já fora de foco, que exploro. Isto atinge-se entendendo os limites do equipamento usado – todas as fotos foram realizadas com a minha fiel EF 100-400mm da Canon – e explorando-o ao máximo. Simples.
Para a foto de efeitos na água é necessário ter paciência e entrar nos caminhos da fotografia contemplativa. São imagens que só se conseguem realizar quando sentamos em zonas de água corrente e olhamos atentamente para os fluxos da água saltitando por sobre as pedras. O sol é essencial neste tipo de fotos, para criar os contrastes que dão volume às formas. Depois é esperar, descobrir um efeito repetido que parece resultar num enquadramento e fixar vários momentos, porque é impossível controlar todos os resultados. É um exercício sempre renovado e que se resume a um termo: VER.
Espero com estas notas ter deixado algumas pistas aos leitores interessados. Provei que num par de horas se conseguem fazer imagens que valem o dia. De facto, estas são somente quatro que escolhi para o cartaz que decidi fazer, porque como resultado destas duas horas tenho bem mais exemplos de que eu soube VER. Dirão alguns que o facto de eu conhecer o local me ajuda. Uhmm, nem sempre. Quando estamos muito familiarizados com um espaço, por vezes perdemos o sentido do novo. O que quer dizer que quem pisa o terreno pela primeira vez é mais atraído por todos os elementos, porque tudo é novidade. Claro que, se não souber VER não chegará muito longe. O que nos leva ao ponto de partida deste texto/conversa.
Para saber mais sobre os workshops que organizo visite o meu website pessoal, em www.joseantunes.com.
Boas fotos!











































































