Crónicas de João M. Gil
Uma fotografia multi-dimensional – Simplicidade e Genuinidade
- Detalhes
- Publicado em 07-06-2010
Tocamos a campainha. “Olá”. Entramos. É uma casa com luz, madeiras, plantas e curiosos adereços de decoração. O hall dá para a cozinha, casa-de-banho e para a sala. Há umas fotografias nas paredes, pequenas, mas que mostram que há ali uma relação especial com a fotografia. Uma delas tem uma dedicatória, “Uhm, há aqui uma relação familiar com a fotografia, mesmo!”, penso. “Giro”.
Pousamos os casacos.
Cheira a incenso, com algo misturado. Talvez fosse uma pitada de caril, evaporada de uma receita algo oriental cozinhada ao almoço. Ajuda ainda mais na empatia com a casa, para quem acabou de entrar (gosto de caril e de incenso!).
A luz da tarde entra pelas janelas vitorianas, grandes e pesadas, naquela casa inglesa. A sala vai buscar as cores às coisas de viagens e das origens de quem ali vive. Sim, vê-se que as viagens não são meramente de visita turística, mas algo me diz que há uma pitada de ligação às origens de quem ali vive. O papel de parede, ao estilo quase inevitavelmente e previsivelmente inglês, é creme e deslavado. Seria o mesmo papel nas paredes de outra casa do mesmo edifício, mas de alguém totalmente diferente, com um espírito totalmente distinto. Alguém que teria um cão, infeliz, com orelhas em baixo, que deambulasse lentamente pela carpete da sala, absorvendo o cotão, e onde algumas pesadas cortinas estivessem corridas para que não deixassem entrar grande luz. Para quê, entrar luz? Haveria um tic-tac a bater, de um relógio algures mas encoberto nas sombras, num ambiente bafiento e sem cheiros que se distinguissem do mofo ou da naftalina. Seria um espaço sem património, não o material, mas principalmente o imaterial. Sem passado e memória e, por isso, sem futuro. Mas esse não era o caso. Não era a casa onde entráramos. E se ali houvesse algum cão, correria e rebolaria na casa que de facto nos recebia. Todos rir-nos-íamos com cotão na esquina, iluminado pela luz da tarde, com as cortinas coloridas puxadas para o lado. Sim, as cortinas eram coloridas e não precisava de ser um sítio demasiado higiénico para nos fazer sentir confortáveis e em empatia com tudo. O cão rir-se-ia para nós e nós para ele.
![]() |
É uma casa simples e genuína. Nota-se que quem ali vive vive a casa e trás para dentro coisas de fora, importantes porque terão sentido para quem as guarda. As energias são positivas, talvez fruto desse sentido, dessa simplicidade e genuinidade. E as cores são como que gargalhadas.
Na sala, no canto oposto às janelas e entrada, há uma mesa. Tem uma jarra com flores meio secas, mas ainda bonitas. Na mesa já caíram algumas flores. Ali ficaram e, parece-me, ainda iriam ficar um tempo. Não me dá nenhuma ideia de desleixo ou de falta de atenção – dá-me ideia da tal simplicidade e genuinidade. A realidade, tal como de facto é e como acontece! E vejo no conjunto dessa mesa, canto, papel de parede, jarra, flores ainda frescas e outras já secas, uma beleza simplesmente e genuinamente forte e cativante. A luz natural de Inverno era perfeita e o enquadramento simplesmente belo. Sem tocar e sem mexer em absolutamente em nada, pego na minha máquina, com a 24mm, a f/4, 1/350s, ISO 500, e fotografo. A composição pedia a que os três eixos entre paredes e mesa definissem o centro, a origem do sistema de coordenadas tridimensional, na jarra e nas flores. Não o centro da fotografia. A sua sombra projecta-se no papel de parede e na mesa. As flores, no plano horizontal, tinham como que caído no local certo e programado, e seria assim que as iria fotografar. Também contribuem com sombras, nesse plano, dando mais volume à fotografia. Sem tocar, quase sem respirar, só regulando a exposição na máquina,…carrego no botão. Simples e genuinamente, usei a quarta dimensão para entrar, ver, descobrir aquela jarra e…fotografar. Usei a quinta (ou a sexta?!) para sentir.
Uns anos depois, esta fotografia é exposta ao público, impressa em papel “fine-art” excelente. Sem cortes e edição, apenas convertendo para P&B. Linda! No meio de outras, é a que chama mais a atenção e a discussão de quem as vê, fico mais tarde a saber. Poderá transmitir algo de imaterial, quase espiritual, tal como aquela casa nos transmitiu? Será esta uma quinta (ou sexta?) dimensão, tendo já usado as quatro dimensões “clássicas” para a executar? Será que aquela casa transmitiu assim tanta força, algo tangivelmente simples e genuíno, através de uma fotografia também tangivelmente simples e genuína? Será que a consigo transmitir ainda com estas palavras?











































