Crónicas de João M. Gil
Água mole em pedra dura...
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- Publicado em 14-09-2009
Alguma parte do meio fotográfico português este ano tem sido rico em debates e discussões que parecem definir rumos que antes pareciam mais desfocados ou tremidos. Se, por um lado, ninguém deve ter a pretensão de vir inventar a roda ou de vir apresentar soluções ou milagres a essas questões, uma crónica sobre o assunto será mais uma visão crítica e global do assunto.
Este texto é, afinal, uma Uma observação de uma verdade, de mais um cidadão que também faz fotografia.Desde já, tenha-se a atenção que o termo “discussão” não tem que ter qualquer carga negativa, entendendo-o aqui como o “exame, diálogo ou debate de uma questão em que tomam parte várias pessoas ou partes, com objectivos comuns ou não, pela argumentação ou pela procura de esclarecimento e verdade”. A propósito, teremos notado que é precisamente pela nossa História que fomos há muito habituados, neste nosso cantinho, a ver algo negativo no conceito de “discussão”?
Não me refiro às discussões sólidas, difíceis e cuidadas dos Júris dos concursos de fotografia, até porque as estes se deverá o maior respeito e até porque não se tratam de discussões públicas. Arrisco-me a querer afirmar que estes sempre resultaram, resultam e resultarão das visões mais claras, as melhor focadas e as menos tremidas. Refiro-me precisamente àquelas da “plebe”, dos executores, de quem põe os olhos na câmara (por oposição a “por as mãos na massa”), dos fotógrafos que diariamente se debatem com a escolha do material na mochila; os que ajustam as cabeças de flash no estúdio garantindo uma interacção útil com quem fotografam; que levam e limpam o material (ou não) para as suas saídas; que deixam cair uma máquina na água, ou uma lente, ou cuja máquina é roubada; que pela noite dentro gastam horas extra para preparar e entregar a tempo as suas melhores fotografias; que preparam e fazem várias viagens para recolha de trabalhos; que fazem com o maior cuidado várias impressões para fazer cumprir com a melhor; que aguentam o calor de Verão no estúdio; que estão horas seguidas na floresta, à espera da chegada de um morcego, depois de artilhar os flashes; que dentro do prazo têm que ir fazendo a sua declaração de IVA e garantir ter os papéis prontos para uma fiscalização das finanças; que vão respondendo com os seus orçamentos a pedidos que vão chegando; que vão actualizando os seus sites; ou vão fazendo livros, depois de procurar apoios e contactar várias editoras ou gráficas; que vão medindo o dinheiro que têm na carteira em função dos trabalhos que vão encontrando; Et cetera!
Ora estes, profissionais ou amadores, nos seus mais variados mundos, experiências, necessidades, ritmos, perspectivas, modos de pensar e de proceder, acabam por se deparar com um momento crucial e comum a todos, “no final do dia” (como dizem os Ingleses, “at the end of the day”) – chega o momento de mostrar as suas fotografias ao mundo, a um receptor definido ou indefinido. Sem esta fase ou, ainda, se esta fase não é acautelada, pode-se ter tido nas mãos a melhor fotografia ou o melhor trabalho, para outros os fazerem perder ou desvalorizar no final, quase como se nunca tivesse alguma vez existido. Pode ser num site, num blog, num livro, numa entrega via e-mail, ou numa imagem algures.
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Respeitante ao “depois” de se fazer as fotografias e ao “quando” se pretende levá-las para fora da sua privacidade autoral, têm-se debatido as questões chave como a defesa dos direitos e reservas de autor, a defesa do simples e cívico acesso e registo nos Parques públicos do nosso país para fotografar Natureza, a coerência e a verdade nas fotografias que se apresenta, o maior ou menor cuidado e ética na atribuição de um valor ao seu trabalho.
Se por um lado estas não são questões novas nem questões exclusivas do nosso país e do nosso meio, são questões que nos afectam a todos – a quem faz fotografia e, é bom lembrar, afecta a quem as vê (estou-me a lembrar da forma como os cartazes eleitorais têm afectado quem os tem visto, este ano…). A meu ver, lidar com estas questões faz parte de ser fotógrafo, seja amador ou profissional. Debatê-las faz parte de ser fotógrafo. Ir lendo sobre elas, faz parte. Ir participando na medida das possibilidades que a sua vida, tempo e dinheiro o fazem permitir, faz também parte. Não ignorá-las e pelo menos segui-las, faz parte. Se antes esta informação e questões não circulavam de todo, hoje fluem de forma estonteantemente eficaz, pela net, em sites ou em fóruns de discussão. Até mais do que nas revistas em papel. Pela participação mais próxima da “plebe” fotográfica, muito deixa de ser tabu para ser uma carta na mesa da discussão e da informação.
Pegando numa estrofe dos Beatles, da música The End de Abbey Road, “And in the end, The love you take, Is equal to the love you make.”, a vida é também isto, seja em que actividade for. No final de contas, “at the end of the day”, o que acabas por tirar é o que dás; ou, em termos mais rurais e menos pop, “colhes o que semeias”. Respeitante ao assunto das discussões e debates na fotografia, no mínimo, contribuir para estas e para a informação transparente é contribuir para a correcção de erros e para melhorar toda a fotografia. Dará os seus frutos, se assim semearmos para depois colhermos. E, como a Natureza nos demonstra, a água mole há-de furar a pedra mais dura.










































